Talvez os preços proibitivos do concerto tenham marcado o tom para aquela que foi uma noite cheia de protocolo, com um público tímido e um artista reservado. Nick Cave entrou pontualíssimo, acompanhado por apenas três músicos: Jim White, Norman Watt-Roy Martin P. Casey no baixo, Jim Sclavunus na bateria e um surpreendente Warren Ellis, capaz de transformar o seu violino numa guitarra eléctrica zangada e reverbativa. A formação violino – baixo – bateria, aliada à voz grave de Nick Cave, fez-me lembrar por mais do que uma vez a melancolia dos Tindersticks de Stewart Staples.
A nova “fórmula” resultou num registo mais cru do que o habitual (quase como se o público assistisse a um ensaio), com novas versões de temas antigos como “Watching Alice” (de “Tender Prey“), “Lucy” (de “Good Son“) “Sad waters” (de “Your Funeral… My Trial“) e “The singer” (composto por e em homenagem a Johnny Cash, do álbum “Kicking Against the Pricks“).
Esta intimidade contrastava porém com alguma coisa… algo faltou para quebrar o gelo que separava o músico de um público apático, silencioso e relutante em aplaudir ou reagir à música que o envolvia. “You’re very quiet”, queixou-se Nick Cave pouco tempo depois do seu primeiro comentário nessa noite: “You can applaud…”.
Tinham-nos dito que, na noite de Terça-Feira, o concerto tinha sido algo de extraordinário, com uma energia capaz de desencadear três encores. Fernando Magalhães, do jornal O Público escrevera: “O público, escusado dizer, adorou, entrando em delírio quando Cave se aproximou da boca de cena para cumprimentar os fãs, incluindo uma rapariga em transe depois de ter conseguido ser beijada na boca pelo cantor.” Um inegável contraste com a tepidez generalizada de Quarta-Feira, o último concerto da Tour.
A certa altura o Público pareceu querer reagir, com pedidos de músicas e alguns assobios, mas a verdade é que, quando o concerto acabou, foram precisos mais de dois minutos de aplausos para trazer de novo os músicos ao palco. E se o primeiro se podia considerar o encore mais difícil da história da música, o segundo (e último) não lhe ficou atrás…

Carl de Keyzer
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