Arquivos Mensais: Março 2005

Quarta, 23.03.2005

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José Cid
Se cá estivesse com a malta, o mestre Cid diria por certo: “Cai neve em Nova Iorque / faz sol no meu país / preciso de Lisboa / para me sentir feliz” mas, helas, não está.
A chuva desta manhã cresceu e transformou-se gradualmente num granizo impertinente que, por volta da hora de almoço, deu lugar a uma neve ligeira que se fez acompanhar por um vento norte determinado, com um apetite muito especial por guarda-chuvas. É sabido que em Portugal a Metereologia não deve muito à coerência, mas não se apoquentem porque nos states não é diferente: ontem fazia um sol resplandecente e hoje é isto…
É importante salientar que o máximo que alguma vez consegui testemunhar em matéria de neve foram montes de gelo triturado dispersos pelos vales da Serra da Estrela, pelo que foi – confesso – com algum entusiasmo que recebi os primeiros flocos da tarde. Num gesto impulsivo, de completo regozijo, apressei-me a encontrar uma cabine telefónica de onde liguei para Portugal, bradando a plenos pulmões a saudosa canção do mestre.

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Terça, 22.03.2005

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NY loves small dogs
É impressionante a devoção que os nova iorquinos prestam à espécie canina: milhares de cães, de todas as formas e feitios, passeiam os donos pelas ruas da cidade, com o ar arrogante e determinado de quem conhece bem a extensão do seu poder.
É frequente os proprietários destes abençoados canídeos trocarem elogios e partilharem cumplicidades entre si quando se cruzam na rua. Há mesmo quem pegue nas bichesas de completos desconhecidos para as beijar e acariciar em público. É… enternecedor?
Claro que, à boa maneira norte-americana, esta declarada afeição suporta toda uma indústria de ‘grooming‘, ‘clothing‘ e ‘pet-sitting‘ à qual a Europa é – por enquanto – totalmente alheia.

Edmund Leveckis

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Edmund Leveckis
Fotografia de tremendo calibre no site do norte-americano Edmund Leveckis. Nova Iorque a preto-e-branco, escura, pastosa e granulada, quase pintada a carvão.
Absolutamente, a não perder.

Segunda, 21.03.2005, 17:00

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Freedom Tower
Como seria de esperar, o Ground Zero atrai centenas de turistas e curiosos à cidade. Conforme explica o cartaz informativo disponível no local, a implementação do projecto de reconstrução – que prevê a edificação de um novo arranha-céus denominado ‘Freedom Tower‘, começou no aniversário do nascimento da “nação americana” a 04 de Julho de 2004.
O World Trade Center (WTC) ocupava um quarteirão no coração do centro financeiro de Manhattan. O fosso onde decorrem as obras, três anos após o ataque terrorista, é incapaz de expressar a verdadeira dimensão da catástrofe humana que ali teve lugar. Fica-se com uma impressão de irrealidade ou – melhor – de incredulidade quando se visita este local. Como se tudo o que a televisão mostrou não passasse de pura ficção…

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(smog): A River Ain’t Too Much To Love

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A River Ain't Too Much To LoveDe acordo com o site oficial da Domino Records, Bill Callahan acaba de gravar o sucessor de Supper, intitulado ‘A River Ain’t Too Much To Love‘.
O disco será lançado oficialmente no dia 30 de Maio deste ano:
Smog has completed his new album, ‘A River Ain’t Too Much To Love’, to be released on May 30th. The album contains ten new songs recorded at Willie Nelson’s Pedernales Studio in Spicewood, Texas, and features the wonderful Jim White on drums. Some of you may have witnessed a live performance of the album when Bill headlined Adem’s Homefires Festival last November. (…)”
– Fonte: Domino Records

Domingo, 20.03.2005, 19:30

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Fotografia Temporária
Hoje choveu durante todo o dia e a temperatura (que tem rondado os 5ºC) desceu ligeiramente.
Como ontem palmilhámos a cidade quase toda, hoje optámos por um café demorado no Upper West Side, seguido de uma tarde recauchutada na Barnes & Noble da Broadway, que oferece quatro gigantescos pisos recheados de livros a preços extremamente apetecíves.
No interior aquecido da livraria, a música ambiente (invulgarmente eclética) convida a ficar. Há gente a ler por todo o lado, em cadeiras, no chão, de pé junto às estantes e no café do último piso que, como não poderia deixar de ser, é um Starbucks.
Em NY, há mais Starbucks por m2 do que marcos do correio…

Domingo, 20.03.2005, 14:00

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Fotografia Temporária
Esta manha visitámos a frente Oeste de Central Park, o que nos conduziu até Strawberry Fields, uma fracção situada junto à 72ª onde, em 1980, John Lennon foi assassinado à porta de sua casa, o Dakota Building.
Um ano mais tarde, Yoko Ono “persuadiu” o mayor de NY a dedicar aquele espaço à memória do seu marido. Dezenas de países (incluindo Portugal) contribuíram com fundos e foi desenhado um mosaico no chão do parque com a inscrição “Imagine“.

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Domingo, 20.03.2005, 09:40

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Fotografia Temporária
Creio que a mística em redor desta cidade é, em grande parte, exagerada. Não me interpretem mal: estou a gostar de Nova Iorque. Só não a sinto como algo de tão único e singular.
Ainda não saí da ilha de Manhattan, é certo, mas pelo que me foi dado a ver quer no Upper East Side, no Soho e no ‘Village’, esta cidade demarca-se do restante espectro norte americano por uma espécie de feel mais europeu (com os seus edifícios antigos e uma população jovem, que faz questão de habitar o centro histórico).

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Sábado, 19.03.2005, 09:05

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Fotografia Temporária
À primeira vista Nova Iorque intimida pela dimensão. Creio que esse será, de resto, o denominador comum em matéria de grandes metrópoles: a redução do indivíduo à sua insignificância.
Estamos alojados em casa de um amigo numa área residencial pacata, a Este do Central Park.
Esta manhã acordámos cedo e saímos para o pequeno almoço. Da janela de um Starbucks, no cruzamento da 2ª Avenida com a 81ª, disfrutámos da quietude matinal do Upper East Side. É Sábado e os cães nova iorquinos tomam conta do passeio.

NY Diary

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Photo by Todd Gross (quarlo.com)
Nova Iorque chega já amanhã. Vou precisar da noite de hoje para acreditar, que isto de interromper a normalidade de uma semana de trabalho com a excentricidade de uma capital longíqua não é fácil de interiorizar.
Entretanto, ao longo dos próximos dias vou manter um diário das lides nova-iorquinas aqui no Manancial. See ‘ya around, baby!

Foto de  Todd Gross.

A herança do nosso progresso

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© Tiago Pedroso
Esta manhã, o rádio prometia temperaturas máximas de 28ºC. O Inverno passou, e ainda não choveu. Para lá dos principais centros urbanos, 60% do País sofre as consequências da seca prolongada e começa a falar-se de falta de água nalgumas regiões do interior.
Lembro-me de discutirmos no liceu o fenómeno do Aquecimento Global nas aulas de Ciências da Natureza. Aquele cenário meio apocalíptico de poluição, subida do nível das águas, verões escaldantes e invernos rigorosos pairava sobre mim como o espectro de uma realidade demasiado assustadora para ser plausível.
Quinze anos mais tarde, parece que essa é definitivamente a herança do nosso progresso: apesar do Aquecimento Global ser hoje uma realidade, o protocolo de Quioto continua a não ser cumprido à escala Global.

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SOS cinema europa

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Foto de Manuel PadilhaNão sei se cheguei alguma vez a ver um filme no Cinema Europa. Quando eu era miúdo, o meu avô levava-me ao cinema aos Sábados à tarde. As matinés do cinema Império e do antigo cinema Monumental são as que recordo com mais nitidez.
Durante muitos anos, Campo de Ourique foi um local que eu procurava evitar. As matriarcas da minha familia arrastaram-me através das intermináveis lojas do bairro até eu ter idade suficiente para ficar em casa sozinho.
Ironicamente, 20 anos mais tarde, essa variedade de comércio – que tanta autonomia confere ao bairro – é uma das principais razões pelas quais gosto de morar em Campo de Ourique. Para alguém como eu, que cresceu longe do centro da cidade num subúrbio a norte de Lisboa, onde era preciso pegar no carro ou apanhar um transporte público para comprar o jornal, Campo de Ourique é um achado precioso. A diversidade de serviços disponível oferece aos moradores a possibilidade de se viver quase exclusivamente dentro do bairro.

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Envelhecer em carvalho

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«Aos 27 anos os vinhos, a gastronomia em geral e as contingências adiposas em particular, insinuam-se. Mudamo-nos das tascas para os bons restaurantes com a naturalidade de quem já não beija desconhecidos porque o beijo passou a ser…

Um anjo chamado George

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REUTERS/Thierry Roge
Esta impressionante fotografia de Thierry Roge (REUTERS) ocupava uma página inteira da revista Visão da semana passada, onde ilustrava um artigo subordinado à visita reconciliadora do presidente Norte Americano George W. Bush à Europa.

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A nona porta do teu corpo

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O livro é muito bom por variadíssimas outras razões, mas esta dissertação é memorável:

«(…)Vincent olha para Julie e, de súbito, ei-lo enfeitiçado: a luz branca conferiu à rapariga a beleza de uma fada, uma beleza que o surpreende, beleza