Quotidiano Delirante (tomo 1)

Quinta-feira, 10 da manhã: Carmen entra no edifício do tribunal. Consigo, traz a convocatória que recebeu no correio. Desorientada, aproxima-se de um indivíduo que fuma encostado a uma parede:

CARMEN: A sala 3A, por favor? Convocaram-me por causa de uma questão de direitos de autor… imagine… só pode ser engano…
HOMEM: (visivelmente desinteressado) Sempre em frente, a 3a porta à esquerda. Carmen entra na sala de audiência, onde já se encontra o queixoso, um homem idoso de aspecto antipático, acompanhado pelo seu advogado. Na tribuna não se encontra ainda nunhum magistrado, por isso Carmen senta-se a aguardar o início da sessão de trabalho.

Passados alguns minutos, entram um juíz e dois auxiliares.

AUX 1: (Martelando convictamente a tribuna) SILÊNCIO!
JUÍZ: Mas não está ninguém a falar, Jonas!
AUX 2: Hoje é quinta-feira, e às quintas-feiras quem fica com o martelo sou eu, batoteiro! Aldrabão!
JUÍZ: Aproximem-se o queixoso e a acusada.

Carmen e o idoso aproximam-se.

JUÍZ: É para não ter de levantar a voz. Estou um pouco afónico… (Para Carmen) E você? Não tem advogado?
CARMEN: É que… não sabia… como deve tratar-se de um engano…
JUÍZ: Bom, vai dar no mesmo. Arranjar-nos-emos assim… o importante é que a Justiça seja rápida e eficiente, não é? Vejamos… chama-se Carmen?
CARMEN: Bem… sim.
JUÍZ: Andou num colégio de freiras? Seguiu depois um curso de Filologia Românica? Teve um caso com um dos seus professores da faculdade? Obteve, mais tarde, uma bolsa para continuar os estudos em França…
CARMEN: … sim…
JUÍZ: E diz aqui: é morena, tem olhos verdes, seios firmes e volumosos… (olha para Carmen) mmm… sim… (retoma a leitura) Ancas largas, pernas torneadas…
AUX 1: Temos de confirmar… Por favor, levante a saia, menina…
CARMEN: O QUÊ!?
JUÍZ: É uma confirmação necessária, não dificulte o trabalho da Justiça, vamos!
CARMEN: Mas… aqui…
JUÍZ: Não nos faça perder tempo!
CARMEN: Está bem…

Claramente envergonhada, Carmen levanta a saia. Os três magistrados debruçam-se com interesse sobre a tribuna, examinando-lhe as pernas.

AUX 1: Pfff… no livro ela usa ligas e não “collants”.
JUÍZ: E saltos altos…
AUX 2: A mim, esta moda dos saltos rasos não me convence!
JUÍZ: Continuemos… Ficámos nas pernas… Agora a descrição entra em pormenores… bem… creio que não é imprescindível comprovar os “pormenores”.
AUX 2: Não sei. Não sei. Talvez fosse melhor confirmarmos alguns…
AUX 1: Pois é! As coisas ou se fazem bem ou não se fazem.
JUÍZ: Fiquemos por aqui. Pelas provas, tem de reconhecer que a sua vida é, na sua maior parte, uma cópia descarada do romance que o Sr. Beluso publicou quando você tinha três anos. É evidente que há alguns pontos em que se afastou do original, acrescentando episódios da sua autoria… e que são os mais fracos. Estamos pois perante um caso de plágio flagrante, com usurpação premeditada de direitos de autor.
CARMEN: O quê? A minha vida é um plágio do romance deste senhor? Estão a brincar?! É absurdo! Eu nem sequer conheço esse romance! É uma coincidência! Mas que parvoíce!
SR. BELUSO: Coincidência uma ova, sua lambisgóia! Eu já te mostro a coincidência!…
JUÍZ: A lei é muito clara, menina. Você nem sequer pediu autorização ao Sr. Beluso para viver a sua vida conforme o romance… por isso… condenamos a acusada a pagar ao Sr. Beluso, a título de indemnização, a soma de 18 milhões. E fica obrigada, no prazo de 60 dias, a mudar de nome e de profissão. Como este tribunal é clemente, autorizamo-la a conservar os seus “atributos” físicos. Temos dito! Bom dia. (…)

– Excerto (quase integral) de “Direitos de Autor”, uma das histórias que compõem o livro “Quotidiano Delirante (tomo 1)” de Miguelanxo Prado, Ed. Meribérica\Liber.

Este é um dos títulos do autor que encontrei este Sábado disponíveis por 5 Euros, numa espécie de mini feira do livro em frente à Bertrand, no Chiado. Este já tinha… mas consegui comprar “Pedro e o Lobo” (uma adaptação do conto de Sergei Prokofiev), “Fragmentos da Enciclopédia Délfica” e o “Quotidiano Delirante (tomo 2)” também por esse preço quase simbólico (custam habitualmente cerca de 12 Euros), de modo que agora só me falta mesmo o “Traço de Giz” para completar a “colecção”.

Aproveitei ainda para trazer um livro do Hugo Pratt, “Saint-Exupéry: o último voo”, autor que nunca cheguei a ler por os livros serem sempre demasiado caros para arriscar.
Já aqui tive oportunidade de elogiar os livros de banda desenhada do Miguelanxo Prado, mas nunca é demais insistir… se tiverem oportunidade, passem pelo Chiado, porque o preço, as histórias e as ilustrações – garanto-vos – valem bem o esforço!

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