Arquivos de Categoria: Crónicas

O Túnel da Evolução

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Assistia eu à vidinha quotidiana a partir da janela do meu escritório quando, no meio da rua, um funcionário municipal munido de uma picareta, levantou a tampa do esgoto. Fazia-se acompanhar por dois “especialistas”: o primeiro carrregava um pulverizador, o segundo prestava-lhes provavelmente apoio moral.

Estremunhados pela súbita claridade, centenas de baratas castanhas agitaram-se nas paredes do poço sanitário. Perplexo, recuei dois passos enquanto os técnicos pulverizavam metodicamente a colónia de insectos que, em nenhum momento, entrou em pânico.

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Primavera

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Fado. Ouço Fado. a quilos, a jorros, repetidamente. leio as letras que sei de cor, mas que releio e redecoro.

Acho que gosto de fado, porque quando era pequena a minha tia ouvia fado no rádio da cozinha do padrinho…

Casos de Polícia: “O Trampolim”

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Artur Lacerda, 62 anos, apanhou o elevador no 7º piso. O edifício do seu escritório em Lisboa albergava quase 400 pessoas, mas naquela tarde Artur descia sozinho.
Subitamente, entre o 4º e o 3º andar, o contentor parou.

Callahan, com a graça de um cadáver

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Bill Callahan - Brotfabrik - Frankfurt am Main, Germany - 2008-05-21 | © Laurent Orseau

Bill Callahan - Brotfabrik - Frankfurt am Main, Germany - 2008-05-21 | © Laurent Orseau

Enquanto escutava “A River ain’t to much to love” a caminho do concerto de (smog) no Clube Lua na passada Segunda-Feira, questionava-me sobre se seria possível tocar aquelas músicas ao vivo. Há um elemento introspectivo muito forte na música de Bill Callahan (sobretudo neste último disco) que obriga a um certo recolhimento. Ouvir aquelas canções no meio de uma multidão de desconhecidos era algo que quase me incomodava.

Foi por isso com alguma apreensão que entrei no pequeno Clube Lua que, tão apropriadamente, mora junto ao rio Tejo.

Enquanto uma projecção algo duvidosa de pin-ups norte-americanas da década de 50 procurava entreter os presentes até à hora marcada, a radar fazia os possíveis por desanuaviar o ambiente de discoteca baffon, com uma banda sonora a preceito.

Callahan fez-se acompanhar por uma Joanna Newsom titubeante ao piano e um baterista (cujo nome não apurei) bem menos prolífico que o mestre Jim White (Dirty Three, Tren Bothers, Cat Power, Nick Cave, Will Oldham, entre outros ), que integrou os (smog) em “Supper” e “A River ain’t to much to love“. Estes dois comparsas precisavam constantemente de sinais de Callahan para acertar entradas e mudanças de ritmo, denotando uma descoordenação que por diversas vezes interferiu no espectáculo.

“Com a graça de um cadáver” – de olhar distante e tez impassível – Callahan ia mastigando as palavras, como se o registo grave da voz lhe magosse a garganta. Mas infelizmente a sua poesia não era alheia à fraca qualidade do som: quem não conhecia já de cor as letras extraordinárias de “A River ain’t to much to love” dificilmente as terá conseguido ouvir em condições, perdendo consequentemente a melhor parte do espectáculo.

É que, à semelhança do que acontece com a música de Leonard Cohen, também aqui os acordes servem o mero propósito de veícular uma prosa (muito) maior.

Sonho com lobos

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A matilha estava bem composta. Eramos 7 ou 8 e corríamos pela floresta a grande velocidade. O Moisés (o meu gato) estava entre nós e liderava as hostilidades.

Recordo uma praia, onde parámos para descansar. O Moisés, que…

No salão de chá

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Ela, folheando a revista: Isto está transformado numa estrumeira: Onde é que já se viu?! O rei de Espanha a casar-se com a neta de um motorista!
Ele, impassível, sorvendo a chávena de chá: Não terá sido uma manobra…

Memórias do (teu) universo

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O cheiro que a terra liberta, fustigada pelo calor que se tem feito sentir nos últimos dias, faz-me lembrar a casa da tua mãe. É uma memória desigual, romanceada, do jardim que dava para as traseiras, repleto de gatos escanzelados…

SOS cinema europa

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Foto de Manuel PadilhaNão sei se cheguei alguma vez a ver um filme no Cinema Europa. Quando eu era miúdo, o meu avô levava-me ao cinema aos Sábados à tarde. As matinés do cinema Império e do antigo cinema Monumental são as que recordo com mais nitidez.
Durante muitos anos, Campo de Ourique foi um local que eu procurava evitar. As matriarcas da minha familia arrastaram-me através das intermináveis lojas do bairro até eu ter idade suficiente para ficar em casa sozinho.
Ironicamente, 20 anos mais tarde, essa variedade de comércio – que tanta autonomia confere ao bairro – é uma das principais razões pelas quais gosto de morar em Campo de Ourique. Para alguém como eu, que cresceu longe do centro da cidade num subúrbio a norte de Lisboa, onde era preciso pegar no carro ou apanhar um transporte público para comprar o jornal, Campo de Ourique é um achado precioso. A diversidade de serviços disponível oferece aos moradores a possibilidade de se viver quase exclusivamente dentro do bairro.

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Manhã incógnita

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O que dizer desta sucessão de dias ásperos em que parece não haver nada para além do sono que me adormece à noite?
Preciso desesperadamente de outro Universo, de uma nova dimensão para tudo o que conheço, de novas…

A fila do supermercado

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Acho que se pode saber muito sobre uma pessoa apenas por aquilo que a vemos descarregar do cesto de compras no balcão do caixa, no supermercado.
Invento sempre milhares de cenários sobre a vida da pessoa que espera ao…

Lhasa de Sela: a nómada ruma a Lisboa

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fotografia © Dirk JanssensA Aula Magna esgotou para receber a cantora americano-mexicana Lhasa de Sela que ontem se deslocou a Lisboa para mais um concerto de promoção do seu último disco ‘The Living Road‘. Com a timidez e a generosidade que lhe são já habituais, de Sela foi gradualmente arrebatando o público, a quem se dirigiu sempre em português.

O alinhamento, composto por temas de ambos os discos (os hinos de ‘La Llorona‘ foram os mais aplaudidos da noite), não trouxe muitas surpresas aos que, como eu, assistiram à sua prestação no Fórum Lisboa em Julho deste ano. Não obstante, o fado de Ary dos Santos e Alain Oulman, “Meu Amor, Meu Amor”, voltou a impressionar e (sobretudo) a aura que ontem envolveu o espectáculo foi bem mais intensa que a do seu predecessor. Este público estava mais desinibido, atento e participativo (tanto que a sua aparente avidez por aplausos chegou mesmo a interferir com a deficiente sonorização da sala), o que acabou por contribuir para níveis consideravelmente elevados de energia.

Apesar de algumas dificuldades de afinação nos primeiros temas, o concerto foi bastante sólido, ficando assim reforçada a promessa de um bom concerto para hoje na Casa das Artes em Famalicão.

Endorsement

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Jules Destrooper Almond Cookies
Lembro-me bem da minha fixação pelas bolachas Belgas quando pela primeira vez apareceram no mercado português. Levava todas as manhãs uma saqueta com 4 unidades para a escola que, na verdade, mal chegavam para o caminho. Como não gosto de chocolate, nunca me interessei pelas posteriores versões achocolatadas do original e, com o passar do tempo, abandonei o guloso vício por enjoo ou mero desinteresse.
Mas eis senão quando o mestre Jules Destrooper invade a nossa singela e descaracterizada nação, prenho de história e arte na confecção de biscoitos de amêndoa:

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Boas notícias, D. Filomena!

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Já lá vão uns mesitos desde a última vez que falei consigo, pelo que espero que esta carta a encontre de melhor saúdinha. Perguntei por si na padaria há uns tempos atrás, mas a Dona Maria não me soube responder…

Notas de Viagem I

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É feriado em Barcelona: dia da Catalunha. A cidade fervilha com manifestações, cartazes e bandeiras vermelhas e amarelas.
Fazia calor quando saímos do aeroporto. Congratulo-me pela singela mochila que trouxe comigo, que me poupa a esforços desnecessários. Se há…

Missão Barcelona

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Último dia de praia. Amanhã partimos para Barcelona, de maneira que esta tarde zarpamos com rumo a Lisboa.
Custa-me deixar o areal deserto ao abandono distante das traineiras que patrulham a costa, mas creio tratar-se de uma boa causa.