O frigorífico é um infalível barómetro da personalidade humana. Isto dito assim não soa nada bem, mas muito sinceramente, creio tratar-se de uma verdade absoluta.
Talvez por o mês de Março ser particularmente festivo, com os aniversários a sucederem-se a um ritmo semanal alucinante, apercebi-me de que, a seguir a cumprimentar os presentes quando entro em casa de alguém, a primeira coisa que faço é despir o casaco, caminhar até à cozinha e abrir o frigorífico. Há quem os tenha enormes, cheios de ímans ou com padrões manchados a imitar o dorso de uma vaca, pequenos e gordos com congeladores raquíticos e minúsculos, coloridos com pegas retro cintilantes e cormadas (o que já por si diz muito do lar onde está inserido), mas o verdadeiro manancial mora no interior da máquina.
Ao abrir aquela “porta para intimidade”, sinto-me sempre expectante. Percorre-me um sentimento estranho de pré-revelação que culmina com a característica baforada revigorante de ar fresco. Talvez seja uma sub-espécie de voyeurismo, mas é de facto uma experiência extremamente reveladora.
O aroma no interior de cada frigorífico é inigualável. É por assim dizer a impressão digital dos donos da casa. Um frigorífico limpo, muito bem organizado por categorias de produto e prateleiras revela método e entrega. Por oposição, encontram-se as nuvens fétidas de vapor que escondem tupperwares perdidos num emaranhado de iogurtes e rabanetes, verdadeiros túmulos selados para os alimentos sitiados no seu interior.
O frigorífico faz parte integrante da nossa intimidade e expõe-nos, escancaradamente, aos olhos prescutórios do visitante.
“Queres alguma coisa?” – Perguntam-me da porta da cozinha com ares de quem acaba de surpreender um intruso. “Não, obrigado. Estou só espreitar.” – É uma justificação fraca, eu sei, mas funciona sempre…
Verifiquei recentemente que o inverso é também verdadeiro. Recebi um amigo para o almoço num destes dias. Assim que entrou lá em casa, cumprimentámo-nos e dirigimo-nos à cozinha para deglutir o repasto. Estava eu a braços com o esparguete, quando oiço o fole de borracha da porta frigorífica a folgar o vácuo. Virei-me imediatamente. Lá estava ele, a espreitar-me despudoradamente as prateleiras, passeando os olhos pelos rótulos dos frascos, apurando a frescura dos ovos e a qualidade dos vegetais. Senti um arrepio mas empertiguei-me, na esperança de que a vistoria fosse fugaz.
Preparava-me para contra-atacar com um “Vamos almoçar?” interrogativo, mas determinado quando, do interior do mono branco, o caramelo me pergunta: “Vocês compram isto?!”. Assim mesmo, com a interrogação coladinha à exclamação, sem qualquer vergonha na cara! Como se a referida marca não se coadunasse com a nossa casa ou com a imagem que o tipo fazia de nós. Claramente, o que ele queria dizer com aquela pergunta era “não vos estava nada a imaginar a comer isto… chiça! Espera só até eu contar isto ao resto da malta…”
Entrincheirado atrás do muro implacável de uma aprente indiferença, atirei um “não é assim tão mau…” que caiu redondo e silencioso do outro lado da barricada.
Escusado será dizer que perdi logo ali o apetite…
Durante o invulgarmente longo e angustiante almoço, fui incapaz de prestar atenção à conversa.
Em quem me estaria eu a transformar?
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Um Comentário
Acuso-me!
Bem sei que é uma falta de cortesia e chá, mas…
Para a próxima fico quedo, mudo e abro antes as gavetas das mesinhas de cabeceira!
Mas será realmente possível que comprasses daquilo? (já nem me lembro o que era!)
BBF
Viva a familiaridade dos voyeurs de frescos e perecíveis!