Casos de Polícia: “O Trampolim”

Artur Lacerda, 62 anos, apanhou o elevador no 7º piso. O edifício do seu escritório em Lisboa albergava quase 400 pessoas, mas naquela tarde Artur descia sozinho.
Subitamente, entre o 4º e o 3º andar, o contentor parou.
Artur estranhou o silêncio que reinava dentro daquelas quatro paredes. Jamais imaginara que o burborinho quotidiano do escritório seria incapaz de penetrar o pequeno habitáculo de que agora era refém.
Experimentou com deligência a campaínha de emergência e aguardou que dessem por ele.


Jorge Pimenta era o funcionário de segurança reponsável pelo 3º piso naquela insuspeita quarta-feira primaveril. Encontrava-se atrás da sua secretária, a escassos 4 metros da porta do elevador, quando o alarme soou. Não ficou surpreendido: ainda na semana anterior uma senhora ficara retida entre o 4º e o 5º durante 10 minutos (o tempo que o colega do turno da manhã precisou para descer – a pé – até à recepção onde se encontrava a chave de segurança capaz de abrir a porta de qualquer piso e tornar a subir até ao 5º, para proceder ao resgate).
Abriu a gaveta da secretária, pegou na pequena chave, curta e desdentada, e levou-a consigo para junto do elevador: “Consegue ouvir-me?”
- “Consigo. Parece que o elevador emperrou outra vez…”
- “Fique descansado que já aqui tenho a chave. Vou abrir a porta do 3º, afaste-se”.
Artur deu dois passos para trás até sentir o pequeno corrimão de apoio contra a base das suas costas. “Força!” – Assegurou.
O segurança teve de se esticar para chegar com a chave ao pequeno orifício que se encontrava no canto superior direito do caixilho da porta. Assim que sentiu o encaixe, rodou-a para a esquerda, no sentido inverso dos ponteiros do relógio, e a porta soltou um estalido metálico.
Assim que Jorge afastou a porta da parede, verificou que o chão do contentor dividia em partes iguais a altura do 3º piso: a metade inferior revelava o negro do fosso; a superior era percorrida pelas pernas anafadas de Artur que pousara a pasta e se acocorara para encarar o seu salvador.
“Obrigado, amigo. E como é agora? Posso saltar por aqui?”.
“Tenha calma. O elevador está muito alto. É melhor eu subir ao 4º e sai pela porta de cima.”
“Não é preciso, eu desco bem daqui. Segure-me aqui na pasta.”
“Olhe que ainda é alto. Espere um bocadinho que eu vou ali buscar a minha secretária, e encosto-a aí ao fosso.”
Mais tarde, quando a Judiciária o interrogou, Jorge Pimenta afirmaria ter dado apenas seis passos na direcção da sua secretária antes de ouvir um estrondo – “Uma espécie de estalo…” – que o fez voltar-se de imediato para o elevador. Aparentemente contrariando as suas indicações, Artur Lacerda decidira saltar sózinho e acabava de aterrar a pés juntos à boca do fosso de ascenção.
De acordo com o relato do segurança – a única testemunha do incidente, assim que Artur se tentou levantar, ter-se-á desequilibrado e caído – de costas – na escuridão. “Parecia em câmara lenta, Inspector! Como nos filmes… o homem ainda olhou para mim, todo esbugalhado, mas nem Ai nem Ui. Desapareceu num instantinho…”
Artur Lacerda, 62 anos, não sobreviveu à queda.

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Um Comentário

  1. Publicado 10 de Outubro de 2006 às 11:14 | Link

    A fuga em frente, ou a atracção pelo abismo?
    haverá alguém capaz do nosso ritmo?
    o nosso tempo raramente é coincidente …

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