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Primavera
Fado. Ouço Fado. a quilos, a jorros, repetidamente. leio as letras que sei de cor, mas que releio e redecoro.
Acho que gosto de fado, porque quando era pequena a minha tia ouvia fado no rádio da cozinha do padrinho Lucas. lembro-me de a ver muitas vezes a chorar ou de nó na voz ao ouvir a Amália ou os estudantes de Coimbra.
Ficava sempre muito calada e quieta para não fazer barulho. Invariavelmente, chegava o trogalho da minha madrinha Adelaide e dizia sempre qualquer coisa como: “Para o que te dá, São!”. a minha tia, ficava sempre ofendida e provavelmente falava-lhe torto o resto do dia.
A minha madrinha tem uma gargalhada enorme. contagiante. todas as manhãs cumprimentava o meu padrinho Lucas, pai dela, com 3 beijinhos pequeninos na face. beijos que eu apelidei de “beijinhos de pombinha”. e ele também lhe dava 3 beijinhos pequeninos. (mostro-te depois como é um beijinho de pombinha)
Nunca vi o meu padrinho sem ser de fato. sempre de fato preto e gravata preta. e chapéu preto. uns de inverno outros de verão. e os sapatos engraxados com tinta. pela minha madrinha.
Os objectos de engraxar estavam na porta de esquina do armario da sala da televisão. abria-se a porta e cheirava logo a graxa.
Eu não podia mexer em quase nada. era tudo super secreto. como o armário do escritorio do padrinho. não se podia mexer. e eu pensava que tinha papeis importantes. mas não. tinha caixas e caixas de lata com biscoitos e bolinhos e bolachas que a minha tia fazia. e pão torrado aos quadradinhos.
Havia pessoas que passavam semanas lá em casa, em visita. uma delas era a sra assunção palácio. uma viúva rica, professora reformada, que me obrigava a fazer ditados depois de jantar. ela tinha uma mala de verniz preta que a minha tia dizia que estava cheia de fios e pulseiras de ouro. sempre que a dona assunção se ia deitar era eu que lhe levava a mala para cima. a minha tia dizia que ela só me confiava a mala a mim. essa sra ensinou-me a fazer um bolo de geleia. e ponto ajour.
Devia ter 10 anos.
A minha cabeça é gigante. estão cá dentro milhares e milhares de fotografias, frases, olhares, cheiros, pessoas, nomes, lugares, detalhes, sonhos. guardo tudo. pode ser importante.
Continuo presa ao fado. fico sem defesas perante o fado. totalmente indefesa.
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