O Túnel da Evolução


Assistia eu à vidinha quotidiana a partir da janela do meu escritório quando, no meio da rua, um funcionário municipal munido de uma picareta, levantou a tampa do esgoto. Fazia-se acompanhar por dois “especialistas”: o primeiro carrregava um pulverizador, o segundo prestava-lhes provavelmente apoio moral.

Estremunhados pela súbita claridade, centenas de baratas castanhas agitaram-se nas paredes do poço sanitário. Perplexo, recuei dois passos enquanto os técnicos pulverizavam metodicamente a colónia de insectos que, em nenhum momento, entrou em pânico.

É uma calma realista: há séculos que as nossas cidades habitam a sociedade das baratas. Não somos sequer o inimigo. Somos cúmplices biológicos. Os arquitectos de um ecosistema partilhado.

É um ciclo familiar, que as baratas conhecem bem. Amanhã será apenas mais outro dia no interminável túnel da evolução.

Fotografia ‘Brighton Sewers‘, por Fantasma Doido.

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