Clepsidra Canalha

O metro apinhava-se de gente. Clepsidra desapertou um botão da camisa para deixar sair o calor. «No metro, à hora de ponta, é sempre verão», pensou. Aproximou-se da vala entre as plataformas e espreitou o túnel do comboio. Não corria uma aragem. Olhou as beatas junto aos carris, imóveis e abandonadas, verdadeira vala comum de cinzas e filtros de cigarro. Sorriu. «São como as minhas memórias».

Subitamente, pareceu-lhe ouvir o seu nome ecoar na câmara subterrânea: «Clepsidra! U-uh!». Estremunhada, olhou em redor. Na outra plataforma, uma mulher pequenina acenava energicamente e oferecia-lhe um sorriso aberto. Clepsidra reconheceu-a de imediato: era a Raquel. Com algum esforço, levantou a mão direita e poiso-a, de costas, sobre o ombro, como se o calor lhe derretesse o gesto.

Do outro lado do gigante cinzeiro, Raquel respondeu. «Oláaa!! Olha, estás com muita pressa?». Na verdade, não estava, mas não era importante. O comboio chegou e Clepsidra não hesitou. Entrou na primeira porta e olhou para Raquel que desfazia lentamente o outrora franco sorriso.

Enquanto a carruagem se afastava, Clepsidra teve a nítida sensação de que também era o calor que derretia a expressão de Raquel, imóvel, sobre a plataforma.

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