‘Comunidade’ de Luiz Pacheco

pachecoQuis um livreiro na Feira do Livro deste ano que eu lhe entregasse para cima de quarenta euros por uma edição especial, ilustrada e assinada, do ‘Comunidade’ do Luiz Pacheco. Se lá estivesse ao meu lado, o Pacheco teria certamente avisado: “Não sejas parvo pá!”. E não fui.

Originalmente publicado em 1964 pela Contraponto (editora fundada pelo autor), este pequeno livro de pouco mais de 30 páginas está esgotado “a montante” (de um estreito riacho editorial) há já algum tempo. Ora em 2007, a Perve Global resolveu reedita-lo (edição limitada a algumas centenas de exemplares), com ilustrações do Artur Cruzeiro Seixas reproduzidas em serigrafia. Foi um destes exemplares que eu encontrei no referido escaparate da Feira do Livro. Como eu não sou grande apreciador do trabalho do Cruzeiro Seixas, resignei-me naquele dia à leitura de outros títulos do Pacheco.

Inusitadamente, ao sentar-me esta manhã em frente ao computador, ocorreu-me fazer uma pesquisa na internet por ‘Comunidade’ de Luiz Pacheco. Fique pois o leitor a saber que a Almedina disponibiliza a totalidade do referido manuscrito – ilustrações incluídas – em formato pdf para quem o quiser ler.

Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.

(…) A cama é larga, de madeira, alta, gingona, parece uma jangada. Eu comparo-a a uma jangada, onde vamos nós cinco, cercados de noite, de ventos, de ondas caprichosas, perigos desconhecidos. É uma imagem literária, esta, da cama-jangada; a literatura, a quem muito, sofregamente lê, dá isto: comparações para tudo, referências imprevistas, casos, tipos, situações paralelas que já houve ou foram inventadas, uma outra vida ou realidade como a nossa de todos os dias e que se infiltra no sangue, ferve na memória sem que a gente dê por isso. Não ajuda a viver, é certo, porque nada ajuda a viver; antes a figurar-se. Permite, talvez, uma certa coerência (interior). Não é importante, afinal – mas que será importante, afinal?

Vamos na jangada. Já estamos tão habituados que nem reparamos (é mesmo assim!). Antes de nascer o bebé, o Paulo Eduardo, era pior: havia sempre o receio por esse desconhecido, cuja cara não víamos, escondida como estava na barrica barriga da mãe, e não sabíamos quem era e como era e o que queria. Talvez um inimigo. Talvez um diferente de nós. Talvez um descontente. Um intruso. Ele só dava sinais (aliás, incompreensíveis, para quem não tiver grande prática) através dumas palpitações, remexidelas, cambalhotas, pontapés no escuro (longa noite primeira, o denso mar original), cabeçadas sob a pele de tambor esticada do odre materno. Mas apareceu e já estamos mais sossegados. Não é um estranho nem um inimigo. É um bebé, apenas um bebé. Um igual a tantos, ao que já fomos, e chora e borra e mija e mama como todos os bebés. Mama como quem está a puxar a vida do corpo da mãe, vida quente e docinha, tão fácil! tão gulosa!, para dentro dele. Caga e mija como quem ri do mundo, do muito que nele há para a gente rir, misérias e tristezas, aleluias e horas de prazer, que tudo vale o mesmo e tudo é o mesmo fumo e tem o mesmo fim. Chora como quem já sabe isso.

‘Comunidade’, Contraponto, 1964

Luiz Pacheco – Escritor, crítico literário, polemista maldito, fundador da editora Contraponto, nasceu em Lisboa em 1925. Próximo da tendência surrealista, escreveu entre outras obras, ‘O Teodolito’ (1962); ‘Comunidade’ (1964); ‘Crítica de Circunstância’ (1966); ‘O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor’ (1970); ‘Literatura Comestível’ (1972); ‘Memorando Mirabolando’ (1995).

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