Diálogos sem Palavras

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Carlos ParedesNa semana passada, o DN oferecia com a compra do jornal um CD que celebrava os 16 anos da TSF. O CD é um registo bem conseguido de marcos da história recente nacional (e internacional), cobertos em directo pelos jornalistas da estação de rádio desde 1988.

Lá para o final da década de 90, depois dos incêndios no Chiado, da “Ecologia” de Sousa Cintra e do pontapé na cabeça de Cavaco Silva (que abria caminho numa sala repleta de gente gatinhando debaixo de uma mesa), um separador sugeria, em pano de fundo, algumas notas de Verdes Anos de Carlos Paredes. A música ficou-me na cabeça e a primeira coisa que fiz quando cheguei a casa foi procurar o Dialogues, um álbum em que Charlie Haden teve o privilégio (e a humildade) de tocar com o mestre português.

Este album é, sem sombra para dúvidas, especial. Sobre os temas de Carlos Paredes, Charlie Haden improvisa sonoridades quentes com um contrabaixo contorcionista, que se funde com a guitarra com uma surpreendente naturalidade.
Fiquei ali a ouvi-los, a imaginá-los em estúdio, dois homens que não falam entre si, sem que com isso se deixem de compreender. O método obstinado, perfeccionista e concentrado de Paredes por oposição à pauta aberta, desgarrada de Haden…
Será que alguma vez se reencontraram? Trocarão correspondência? Saberá o músico americano que há já quase dez anos uma doença irreversível amarra o mestre a uma cama? Que não o deixa tocar…

Fica o testemunho de Rui Vieira Nery sobre a última gravação de Carlos Paredes nos estúdios de Paço d’Arcos da Valentim de Carvalho em 1993.

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Belleville Rendez-Vous

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Belleville Rendez-vous | O Manancial da Noite

Às vezes acontece. Vai-se ver um filme menos bom e, ao mesmo tempo, descobre-se outro que promete muito mais.
O trailer de Belleville Rendez-vous (Les Triplettes de Belleville (2003), no original) promete uma longa metragem de animação absolutamente irresistível, escrita e ralizada por Sylvain Chomet, com ilustrações deliciosas e uma banda sonora magnética, que me apressei a procurar.
Benoît Charest, um músico Canadiano apaixonado por Swing e Django Reinhardt, criou para este filme uma sonoridade “anos 20″ que mistura Paris Combo com Edith Piaf para dar origem a 19 faixas de um Jazz rápido e bem disposto.
Um filme a não perder, com uma banda sonora a preceito.

Pitigrilli e ‘A Decadência do paradoxo’

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“O paradoxo é o contraste violento entre o que nos diz o raciocínio vulgar e o nosso raciocínio pessoal; (…) É a ilícita concorrência que a galantaria do pensamento faz à sã, honesta e tranquila verdade. Quanto mais violento é o choque entre os dois conceitos, tanto maior é o paradoxo.”

Um amigo fez-me chegar uma edição (um autêntico “pergaminho” da Editorial Minerva) de 1947 deste livro do Pitigrilli, uma espécie de ensaio, muito coloquial, sobre a decadência do paradoxo. Fica feito o resumo:
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Os teus Matraquilhos

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Gostava de te dizer que, depois de todos estes anos “no banco”, encontrei um novo plantel. Tenho assistido a todos os jogos: os jogadores andam de cá para lá, a bola balizada pelos dias, únicos de tão teus e a euforia é tanta que me deu para isto…

Cinema Paraíso no Cineclube DNA

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Com as constantes promoções de DVD’s em jornais e revistas a sucederem-se uma após a outra com preços ditos “irresistíveis”, torna-se difícil acompanhar o mercado e encontrar espaço em casa onde armazenar o stock de películas.
Há 15 dias o Diário de Notícias arrancou com o Cineclube DNA às quintas-feiras. Desde então, a selecção tem sido irrepreensível: Apocalypse Now (Redux) de Francis Ford Coppola seguido por Os Vigaristas de Bairro de Woody Allen.
Quinta-Feira, dia 04 de Março, lançam Cinema Paraíso (Nuovo Cinema Paradiso) a obra-prima do realizador Giuseppe Tornatore.
Sem sombra para dúvidas, um óptimo pretexto para conseguir um espacinho na prateleira…

Carl de Keyzer

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Carl de Keyser | O Manancial da Noite
Valeria a a pena visitar apenas pelo site, mas o portfolio deste fotógrafo de 46 anos é simplesmente genial. Espreitem a área Books.

Nick Cave em concerto “protocolar”

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Talvez os preços proibitivos do concerto tenham marcado o tom para aquela que foi uma noite cheia de protocolo, com um público tímido e um artista reservado. Nick Cave entrou pontualíssimo, acompanhado por apenas três músicos: Jim White, Norman Watt-Roy Martin P. Casey no baixo, Jim Sclavunus na bateria e um surpreendente Warren Ellis, capaz de transformar o seu violino numa guitarra eléctrica zangada e reverbativa. A formação violino – baixo – bateria, aliada à voz grave de Nick Cave, fez-me lembrar por mais do que uma vez a melancolia dos Tindersticks de Stewart Staples.

A nova “fórmula” resultou num registo mais cru do que o habitual (quase como se o público assistisse a um ensaio), com novas versões de temas antigos como Watching Alice” (de “Tender Prey“), “Lucy” (de “Good Son“) “Sad waters” (de “Your Funeral… My Trial“) e “The singer” (composto por e em homenagem a Johnny Cash, do álbum “Kicking Against the Pricks“).

Esta intimidade contrastava porém com alguma coisa… algo faltou para quebrar o gelo que separava o músico de um público apático, silencioso e relutante em aplaudir ou reagir à música que o envolvia. “You’re very quiet”, queixou-se Nick Cave pouco tempo depois do seu primeiro comentário nessa noite: “You can applaud…”.

Tinham-nos dito que, na noite de Terça-Feira, o concerto tinha sido algo de extraordinário, com uma energia capaz de desencadear três encores. Fernando Magalhães, do jornal O Público escrevera: “O público, escusado dizer, adorou, entrando em delírio quando Cave se aproximou da boca de cena para cumprimentar os fãs, incluindo uma rapariga em transe depois de ter conseguido ser beijada na boca pelo cantor.” Um inegável contraste com a tepidez generalizada de Quarta-Feira, o último concerto da Tour.

A certa altura o Público pareceu querer reagir, com pedidos de músicas e alguns assobios, mas a verdade é que, quando o concerto acabou, foram precisos mais de dois minutos de aplausos para trazer de novo os músicos ao palco. E se o primeiro se podia considerar o encore mais difícil da história da música, o segundo (e último) não lhe ficou atrás…

Turista acidental

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Ontem deixei o carro ao cuidado da berma e fiz-me ao passeio. Apercebi-me, por exemplo, que desconhecia o novo mecanismo de portas automáticas no metro e que há já quase três anos não andava num transporte público.
Senti-me uma espécie de turista, em modo de descoberta, sem horários e de máquina fotográfica en riste.
Com os dias a derreter lentamente ao sabor do meu tempo, parece que consigo finalmente vislumbrar uma réstia de descontracção.

Par lui-même

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Palavras houvesse para definir o Sujeito, melhor diria difícil de encontrar:
“To Tiago,
Meu Caro Amigo,
Enquanto espero pelas pessoas com quem vou almoçar, por razões de serviço, lembrei-me da bicicleta. Estou em pé a reflectir e a escrever. Tudo bem? Tiago, há que criar a tua rotina. O pneu de trás está vazio. Se quiseres rebentar com os pneus ou com a bicicleta, vão algumas sugestões:
- ir encher o pneu já montado na bicicleta
- subir\descer passeios
- andar sobre as pedras
- travar e derrapar (grande pinta!!)
- criar pistas para dar saltos
- enfiares-te com a bicicleta num carro
(se quiseres passar pela oficina, antes de aplicares as receitas sugeridas, o custo é, como calculas, nulo.)
Um abraço.
Boas férias, João
09.08.93″

O peso da minha insignificância

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Na gaveta, encontrei um papel sem data. Uma folha A4, dobrada ao meio, limpa com excepção de algumas letras, a azul:
O peso da minha insignificância
A música tocava. Cabia-nos aprender a dançar. É claro que importa definir os limites de um “jogo de cintura”! Não sei se salte em pleno voo… Vestir um pára-quedas e aterrar noutro destino onde me esperam, certamente, outras opções com novas incertezas.”
Quando não guardamos memória das palavras, é como se não as tivessemos escrito.

Reticências

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O que é que se faz quando não se tem nada para fazer?
Retomam-se projectos antigos, repiscam-se ideias, dorme-se muito e olha-se pela janela para um bairro que de dia nos parece estranho por só o conhecermos de noite. Até as pombas que poisam no parapeito da sala, alheias à minha presença invulgar, se assustam e apressam-se a levantar voo assim que me pressentem.
É como se eu não devesse estar aqui. Estou a perder referências.

Jazz intimista

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Diane: “What is that record? It’s terrific!”
Peter: “It’s Art Tatum and Ben Webster.”
– Excerto de diálogo retirado do filme September (1987), de Woody Allen.

Carta de amor

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“Bébézinho do Nininho-ninho
Oh!
Venho só quevê pâ dizê ó Bébézinho que gotei muito da catinha d’ella. Oh!
E tambem tive munta pena de näo tá ó pé do Bébé pâ le dá jinhos.
Oh! O Nininho é pequenininho!
Hoje o Nininho näo vae a Belem porque, como näo sabia s’havia carros, combinei tá aqui ás seis o’as.
Amanhä, a näo sê qu’o Nininho näo possa é que sahe d’aqui pelas cinco e meia (isto é a meia das dinco e meia).
Amanhä o Bébé espera pelo Nininho, sim? Em Belem, sim? Sim?
Jinhos, jinhos e mais jinhos
31-0 5-1920
Fernando”

- CARTAS DE AMOR DE FERNANDO PESSOA, Ediçöes Ática, Lisboa, 1978

2004, um ano de despedidas?

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Vivendo, fumando ou cantando, 2004 parece ser um ano de despedidas.

Ainda o Ghost World

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Seymour (Steve Buscemi) colecciona discos antigos de blues, jazz e ragtime. Conserva o seu expólio, que soma já mais de 1500 Lp’s, com a dedicação e respeito próprios de um aficcionado.

Ao que parece, o hobby deste personagem foi baseado na experiência pessoal de Terry Zwigoff, o realizador de Ghost World, que também colecciona LP’s antigos.

De certa forma, já esperava que a banda sonora fosse boa, uma vez que grande parte das músicas que vamos ouvindo com o decorrer da história se intercruzam com a narrativa, mas na verdade, trata-se de um verdadeiro achado: Jaan Pehechaan Ho de Mohammed Rafi, Skip James com Devil Got My Woman, três temas de Lionel Belasco (Venezuela, Miranda e Las Palmas De Maracairbo), Vince Giordano and the Nighthawks, entre outros.

A contrastar com o espectro da realidade vazia descrita no filme, este disco tem uma personalidade forte com um travo intenso a vinil.

A coleccionar!