RESPIRO

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Grazia vive na pequena ilha de Lampedusa, perdida no Sul da Sicília. Tem três filhos e um marido que, à semelhança da quase totalidade dos homens da ilha, é pescador.
A história deste filme é muito simples: uma mulher, maior que toda a ilha, uma comunidade fechada e conservadora que a priva do espaço necessário para ser genuína e uma relação forte entre uma mãe e um filho.

Com personagens incrivelmente genuínos e uma paisagem mediterrânica fantástica, é um filme a não perder.

A LENDA DE GRAZIA
Lampedusa, entre a Sicília e a Libía, é a mais africana das ilhas europeias e inspirou numerosas lendas, desde a Mitologia grega. É uma terra isolada que exacerba o misticismo. Uma das fábulas que se contam é a história de uma jovem mãe, tão encantadora quanto imprevisível, considerada louca por ser diferente e impulsiva. Apesar do ódio da população que queria enviá-la para outro lugar para se tratar, a jovem mãe prezava a sua liberdade e educava os três filhos com amor. Um dia, desaparece sem deixar rasto. Todos acreditam que se terá suicidado e sentem-se culpados. Rezam então para implorar o perdão e acontece um milagre: ela reaparece. Todos acreditam que foi o mar que a trouxe de volta. No filme, Grazia é como o mar. Ela é imprevisível e não pode ser fechada.

Jonas, o rapaz volátil

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Pobre Jonas, o rapaz volátil. A mana passeia-o na rua, guita atada ao sapato, sorriso aberto de criança que segura um balão. Gostam assim, ele ao sabor do vento, ela ao sabor do tempo.

Entram no parque pela rua de cima. Jonas diz:

- “Cuidado com as árvores, Mariana. Os ramos prendem-me os cabelos”.
- “Não sejas tonto”, diz a mana. “Não vez que estas já têm cabelo?”
A Mariana tem razão. Do alto do cordel, Jonas espreita entre as copas, recheadas de verde. O vento sopra e as folhas dançam devagarinho, de um lado para o outro.
- “Mariana, as árvores são como eu!” – grita ele.
- “Não tens juízo nenhum!”
- “Não vês? Estão presas ao chão, mas dançam com o vento.”

Correm até ao lago.

Jonas sabe que os patos são bichos muito desconfiados. Fogem dele porque não percebem como pode voar sem um par de asas.

- “Dizem que é muito levezinho” – Cochicham os patos – “Onde já se viu?! Um pato sem asas…”
Jonas tenta explicar:
- “Não fujam, que não vos faço mal. Eu não sou um pato!”
- “Se não és um pato, és o quê?” – grasnou um ganso cinzento.
- “Chamo-me Jonas, o rapaz volátil e sou muito distraído. Tu não sabes porque és um ganso, mas as pessoas distraídas são mais levezinhas. Não têm os pés assentes na terra.”
- “Porquê?” – indagou o cisne preto.
- “Porque são muito curiosas” – atalhou Jonas.
- “Não percebi…” – queixou-se o marreco.
- “Estão atentas às outras coisas.”
- “Outras coisas? E que coisas são essas?” – perguntou o mais desconfiado de todos.
- “Aquelas a que ninguém se lembra de prestar atenção e que, por isso, se sentem muito sozinhas. São muito tímidas e difíceis de observar, mas são as mais bonitas. Precisam só de alguém como eu, capaz de as encontrar e sentem-se logo melhor. Dizem: “Olhem para aquele rapaz: sonha acordado! És tu, Jonas? Jonas!”. E lá vou eu pelo ar, ao encontro delas.”
- “É por isso que trago o cordel”, explicou a Mariana. “Para que ele não se perca.”

Menos nervosos, os patos aproximaram-se da margem e a Mariana abriu o saco do pão. Partiram-no aos pedaços e lançaram-no ao lago. Jonas estava divertido e reparou como os pedaços se desfaziam na água.

Pensou que se mergulhasse, diluir-se-ia.

O pó das palavras

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Em nossa casa o pó esconde as palavras.
Adensa com o tempo, denso e espesso,
das tuas gavetas
Fecham-se as janelas para guardar segredos,
todos os medos e degredos,
de anos em silêncio.
E o vento na janela força a fechadura
na ânsia prematura
de uma lágrima vã.

Aos meus olhos

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Sorrias enquanto falavas e as tuas palavras eram tudo.
Beijei-te várias vezes sem que desses por isso.
Às vezes, a beleza dói.

Lá em Baixo

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Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão noite
há quem tema a madrugada
e no escuro se afoite
há quem durma tão cansado
nem um beijo os estremece
de manhã acordarão
para o que não lhes apetece
e há quem imite os lobos
embora imitando gente
há quem lute e ao lutar
veja o mundo a andar para a frente
(…)
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
(…)

- Sérgio Godinho, “Lá em Baixo” do álbum “Campolide” (1979)

De flores e desertos

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Podia ser mais uma estória clássica de rapaz-que-conhece-rapariga em que ele se apaixona por ela e ela por ele e tudo o resto parece subitamente irrelevante.
Na prática foi isso mesmo que aconteceu. Ele com 81 anos e ela com 58, ele meu avô e ela de outra cidade, lá para o norte de Portugal.
Numa viagem que fez para visitar um familiar doente, o meu avô reencontrou uma paixão antiga.
Surpreendido pelo arco sorrateiro de cúpido, não voltou na data prevista e telefonou para dizer que se sentia feliz.
Aos 81, rompeu a relação que mantinha há 13 anos e mudou de cidade.
Apaixonado como nunca o tinha visto, almoçámos com ele e brindámos a esta nova realidade meio inacreditável.
É fantástico como há mesmo “homens capazes de uma flor onde as flores (supostamente) não nascem”…

Unza Unza Time

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Sem dúvida o álbum das 2 últimas semanas: “Unza Unza Time” de Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra.
Ouvi parte deste álbum pela primeira vez no documentário super 8 stories de Emir Kusturica, que passou há alguns dias no cine222 e fiquei em pulgas para arranjar este CD.
Algumas músicas do (enorme) alinhamento entraram já na banda sonora do filme “Gato Preto/Gato Branco” também do Kusturica, mas com outras versões e, por vezes, outros intérpretes (como por exemplo “Djindji Rindji Bubamara” ou “Pitbull Terrier”).
O álbum é perfeito do princípio ao fim e recomenda-se vivamente!

A Estela e Eu

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É curioso como o cheiro do perfume da minha avó me ficou gravado na memória. As férias no Alvor eram o ponto alto do meu verão e se na altura me perguntassem eu diria mesmo que eram o ponto alto do meu ano.

A torralta era uma espécie de terra distante para onde se ia de carro numa viagem exasperante e interminável que se suportava em prole de uma promessa de praia, gelados e carcaças com manteiga ao pequeno almoço.

Na torralta há coisas de que não se prescinde: oferecer bananas ao babuíno demente da estrada principal, recomeçar a sempre incompleta colecção de carochas pretas e comer um pastel de feijão no café da praia, ali ao pé da piscina. Se tivessemos mesmo muita sorte, os pirilampos acenderiam as luzes à noite e a minha avó apanhava-nos um com o copo, que lhe serviria de cativeiro até à manhã do dia seguinte.

Os dias começavam cedo, comigo e com o meu avô a caminho da padaria. As carcaças cheiravam-se a milhas de distância e era frequente esperarmos numa fila longa pela nossa vez de falar ao padeiro.

A minha avó era uma mulher grande e cheia de vida, como o sol no verão. Na praia, ficava sentada à sombra de um chapéu de sol minúsculo, muito desproporcional à sua estatura, e raramente tomava banho. Quando o sol castigava os banhistas, a minha avó caminhava até á beira mar de panamá na cabeça, e sentava-se na areia a olhar o mar. Contemplativa e ensimesmada, flutuava na maresia como só ela sabia, enquanto eu lhe cobria as pernas com areia molhada para a coroar rainha do meu castelo.

Mas por mais fortalezas de areia que edificasse em seu redor, não havia maneira de a segurar. A Estela sempre foi maior que o Mundo.

Há dias assim…

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.. em que apetece apresentar a demissão ao dia-a-dia, dizer-lhe que estou farto da rotina, que já paguei os meus minutos, que não quero ter nada a ver com o PIB ou com camisas engomadas, que trago calos das horas que passo sentado e que a vida não é aqui. Que essa mora algures, noutra parte do Mundo onde não se fazem relógios e o tempo não existe.
Impaciente, espero a minha vez no cais de embarque.
Não me importa para onde vou.
Basta-me a viagem.

Francisco deixou Cuba

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Compay Segundo
Don Francisco Repilado, o “Compay Segundo” do Buena Vista Social Club, morreu ontem em Havana aos 96 anos.

O centro do Mundo

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Escrevemos extensos tratados ao longo destes quatro anos. Dia após dia, arquiva-mo-los meticulosamente em gavetas, trabalho árduo e penoso, mas absolutamente indispensável.
Subitamente, de gaveta em riste no centro do Mundo, paraste e choraste copiosamente.
Apressei-me a procurar no arquivo “C” por “c”horar.
Abri a gaveta e puxei o volume. Todas as páginas em branco…
Onde estão os nossos documentos?!
O que foi feito das nossas palavras, dos registos do que fizemos e do que foi dito?
Agora não tenho por onde começar. Não ficou uma pista e não há uma única página para ler.
E tu ali, Imóvel, a chorar e a assegurares-me de que nunca te vou compreender.

Gabriela, a fronha e o abraço (Cont d’)

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Na porta da casa de banho, falavam de amor. Meia dúzia de palavras a marcador encarnado e na gramática mais questionável, gravadas para a posterioridade. Gabriela leu várias vezes a frase. Não tinha a certeza de a compreender. Talvez não fosse a gramática, talvez fossem as paredes que não paravam de se contorcer. Soluçou. Aproximou os joelhos do esmalte e agarrou firmemente o rebordo da sanita.
Sentiu uma onda de calor percorre-lhe as costas e os olhos, turvos de lágrimas, olharam em redor.
As paredes riscadas pareciam soltar palavras que flutuavam livremente, como bolas de sabão. Agregavam-se por instantes, para depois se separarem num frenesim literário de siginificados insignificantes, num raciocínio caótico de adjectivos e nomes próprios que compunham novos enredos e personagens que Gabriela parecia, finalmente, apreender.

Lomomania

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“A ARTE DE FOTOGRAFAR COM UMA LOMO CONSISTE EM FOTOGRAFAR AO ACASO, DE FORMA IMPREVISÍVEL. A LOMOGRAFIA NÃO É UMA FOTOGRAFIA ENCENADA, PRODUZIDA; É UMA FOTOGRAFIA DO QUOTIDIANO.”

- in lomolisbon

Agrada-me por princípio e pelo que me foi dado a ver. Espreitei a loja on-line na lomolisbon, mas não fiquei ainda muito esclarecido sobre as diferenças entre os modelos.
Estou, no entanto, suficientemente curioso para investigar um pouco mais…

Gabriela, a fronha e o abraço

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Quando Gabriela abriu os olhos, já o dia havia acordado fazia muito tempo.
A temperatura no quarto descera muito para além do razoável e Gabriela teve a nítida sensação de que era o ar que expirava que arrefecia o ar que a envolvia. Aconchegou-se no edredão.
Das frinchas nas percianas envelhecidas emanavam feixes de luz que, sobre a cama e através da penumbra, cruzavam o quarto e desenhavam formas geométricas na parede oposta, relembrando-lhe que Outubro fervilhava de vida lá fora. Gabriela olhou-as, os olhos semicerrados de quem os trazia fechados, e recordou as palavras lancinantes que, na noite anterior, lhe haviam rasgado os lençois e o peito. É curiosa a força das palavras. Hoje acordava sózinha pela primeira vez em dois anos.
Reparou que uma das almofadas caíra durante a noite, e não conteve um sorriso: «Como nos iludimos», pensou. «Tomamos tudo por garantido». Era capaz de jurar que aquela almofada jamais escaparia ao seu abraço e no entanto… Rolou sobre o colchão e deixou cair o braço. A fronha estava fria e Gabriela pensou que estranho seria se ainda estivesse quente.

Já era dia, quando saí de tua casa. O frio gelou-me os ossos antes que pudesse entrar no carro. Girei a chave na ignição e desci a rua. Quis-me pôr a milhas, longe de ti e do teu quarto. Do que dissemos e fomos, noutro tempo, nesse espaço. A sucessão de fachadas hipnotizava-me e acabei por me deixar ir, adormecido pela velocidade do carro e pela cidade que passava na minha janela, qual tela cinematográfica, onde era projectada a vida de alguém que nada tinha a ver comigo.
Sempre fui um bom espectador.
Quando adormeci, não pensava em ti. Os meus lençois não têm memória do teu corpo e na minha cabeça mora apenas a longa e contínua sucessão de fachadas.

O esboço do tempo

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Era uma vez um tempo onde tudo era pardo e os teus minutos não tinham pressa. Fundiam-se com os meus em horas onde nos perdíamos em rascunhos do que julgávamos ser o presente.