Pobre Jonas, o rapaz volátil. A mana passeia-o na rua, guita atada ao sapato, sorriso aberto de criança que segura um balão. Gostam assim, ele ao sabor do vento, ela ao sabor do tempo.
Entram no parque pela rua de cima. Jonas diz:
- “Cuidado com as árvores, Mariana. Os ramos prendem-me os cabelos”.
- “Não sejas tonto”, diz a mana. “Não vez que estas já têm cabelo?”
A Mariana tem razão. Do alto do cordel, Jonas espreita entre as copas, recheadas de verde. O vento sopra e as folhas dançam devagarinho, de um lado para o outro.
- “Mariana, as árvores são como eu!” – grita ele.
- “Não tens juízo nenhum!”
- “Não vês? Estão presas ao chão, mas dançam com o vento.”
Correm até ao lago.
Jonas sabe que os patos são bichos muito desconfiados. Fogem dele porque não percebem como pode voar sem um par de asas.
- “Dizem que é muito levezinho” – Cochicham os patos – “Onde já se viu?! Um pato sem asas…”
Jonas tenta explicar:
- “Não fujam, que não vos faço mal. Eu não sou um pato!”
- “Se não és um pato, és o quê?” – grasnou um ganso cinzento.
- “Chamo-me Jonas, o rapaz volátil e sou muito distraído. Tu não sabes porque és um ganso, mas as pessoas distraídas são mais levezinhas. Não têm os pés assentes na terra.”
- “Porquê?” – indagou o cisne preto.
- “Porque são muito curiosas” – atalhou Jonas.
- “Não percebi…” – queixou-se o marreco.
- “Estão atentas às outras coisas.”
- “Outras coisas? E que coisas são essas?” – perguntou o mais desconfiado de todos.
- “Aquelas a que ninguém se lembra de prestar atenção e que, por isso, se sentem muito sozinhas. São muito tímidas e difíceis de observar, mas são as mais bonitas. Precisam só de alguém como eu, capaz de as encontrar e sentem-se logo melhor. Dizem: “Olhem para aquele rapaz: sonha acordado! És tu, Jonas? Jonas!”. E lá vou eu pelo ar, ao encontro delas.”
- “É por isso que trago o cordel”, explicou a Mariana. “Para que ele não se perca.”
Menos nervosos, os patos aproximaram-se da margem e a Mariana abriu o saco do pão. Partiram-no aos pedaços e lançaram-no ao lago. Jonas estava divertido e reparou como os pedaços se desfaziam na água.
Pensou que se mergulhasse, diluir-se-ia.

RESPIRO
0Grazia vive na pequena ilha de Lampedusa, perdida no Sul da Sicília. Tem três filhos e um marido que, à semelhança da quase totalidade dos homens da ilha, é pescador.
A história deste filme é muito simples: uma mulher, maior que toda a ilha, uma comunidade fechada e conservadora que a priva do espaço necessário para ser genuína e uma relação forte entre uma mãe e um filho.
Com personagens incrivelmente genuínos e uma paisagem mediterrânica fantástica, é um filme a não perder.
A LENDA DE GRAZIA
Lampedusa, entre a Sicília e a Libía, é a mais africana das ilhas europeias e inspirou numerosas lendas, desde a Mitologia grega. É uma terra isolada que exacerba o misticismo. Uma das fábulas que se contam é a história de uma jovem mãe, tão encantadora quanto imprevisível, considerada louca por ser diferente e impulsiva. Apesar do ódio da população que queria enviá-la para outro lugar para se tratar, a jovem mãe prezava a sua liberdade e educava os três filhos com amor. Um dia, desaparece sem deixar rasto. Todos acreditam que se terá suicidado e sentem-se culpados. Rezam então para implorar o perdão e acontece um milagre: ela reaparece. Todos acreditam que foi o mar que a trouxe de volta. No filme, Grazia é como o mar. Ela é imprevisível e não pode ser fechada.